SEM SAÍDA VERSÃO HELOÍSA
SEM SAÍDA
Personagens:
A - Homem
B - Mulher 1, usando uma mascara para olhos de dormir
C - Homem de Pijama
CENÁRIO
Palco nú, um sofá ao centro. Luz forte cobre toda a cena. A entra confuso quase cego com a luz forte e esbarra no sofá machucando seu joelho. Tem o reflexo de sentir dor mas não sente nada. Estranha a falta de dor e segue tateando o sofá. Percebe que encostou em uma perna. Havia outra pessoa ali, sentada no sofá. Era B, que estava sentada fazendo crochê. A se assusta e pula para trás. B não se mexe, continua concentrada no seu crochê. A percebe que B não teve reação e acha estranho, mesmo assim senta-se no colo de B. B se incomoda e empurra A. Em seguida ameaça A com sua agulha de crochê com a mão tremula de medo. Vagarosamente retira a mascara de olhos feita para dormir e encara A. Se acalma e pergunta a A:
B: O que foi isso? Você pode me explicar?
A: Eu não sabia o que fazer, okay? Mas eu quis sentar em algo vivo...
B olha para as próprias mãos e braços e se pergunta:
E eu tô vivo mesmo?
A arregala os olhos com horror. C entra gritando, rolando de dor
C: AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH
A e B não percebem C.
C enquanto grita encara A e B para ver se o percebem. A e B continuam sem o perceber. C cutuca A e B, A e B percebem C. C repete:
C: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH AAAAAAHHHHHHHHHHHH Que dooor!!
B: Você sente dor?
A: É claro que ela sente! Todo mundo sente dor!
B: Mas qual dor? Dor é uma coisa que só existe na nossa cabeça.
C grita mais baixo.
A e B se entreolham, e começam a gritar no mesmo tom. Aumentam o volume.
C, gritando: PAROU
Todos se calam.
C: passou.
A: Passou o que, seu doido, você entra gritando, estressa todo mundo e diz que passou, ah não agora eu vou gritar - gritando começa a correr pelo espaço - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
B observa A e tapa sua boca.
B: CALEM A PORRA DA BOCA DE VOCÊS! A GENTE TA MORTO MAS AINDA OUVE! E não precisa gritar pq eu CONSIGO TE ESCUTAR!!!
A e C: MORTO?
C: Morto, nada... Eu to é vivinho da Silva, olha meu pingolin!! Pronto pra meter bala!
B: Que nojo!
Todos se olham com a estranheza de que a morte pode ser sim um possibilidade para todos eles. Tentam se tocar, mas seus corpos parecem se repelir. Os toques passam muito perto do corpo um do outro porém nunca encostam de verdade. Eles vão tentando cada vez mais se tocar cada vez com mais energia e mais velocidade. O movimento gradativamente se transforma num belo tango a três. A tira uma peça de roupa, depois mais uma, até ficar somente de cueca. Os outros dois percebem e interrompem o tango. Eles se afastam.
B: Nem morta eu tenho um sossego de paz com esses machos.
A: Ah você não gosta de homem? Vou resolver pra ti. - Tenta dar um soco em C, erra, C desvia e tenta devolver, também erra e a briga continua, mas ambos se olham com ternura e um clima de romance se esboça no ar. B observa com espanto.
B: Vocês estavam se estapeando e agora estão querendo se atracar? Quanta coerência!
C: O amor e o ódio andam juntos!
A: O prazer e a dor também!
Uma luz azul invade o palco, chuva
A: As gotas... Elas.... Elas me lembram da vida, do fogo, me lembram tudo aquilo que eu nunca vivi, mas sinto falta. A chuva me corrói.
B e C se aproximam de A e viram um corpo só.
Todos: Aqui no inferno não há um dia que não chova. A transmutação da chuva nos une e nos disfarça.
TODOS DANÇAM A DANÇA DA MORTE, BUTÔ.
As roupas vão caindo, os corpos vão se molhando com a chuva, derretendo a maquiagem e revelando a “verdadeira” cor de cada um deles: vermelho, azul e amarelo.
Vermelho, raiva, rancor, explosão.
Azul, passividade, acolhimento, perdão.
Amarelo, fome, vontade e desejo.
Azul e amarelo saem de cena. Vermelho permanece.
Vermelho (explosivo): algo tem de ser feito, é um país enorme à beira da miséria!
Som de multidão, rebuliço, confusão. Vermelho cai no chão, em choque. Um grupo de pessoas vestidas de verde militar recolhe o corpo vermelho e o coloca num canto de palco que tem um recorte luminoso redondo, a pino.
Amarelo chega correndo e gritando: algo tem de ser feito, é um país enorme com o bucho roncando! Eu tô morto mas faço mais por esse país do que o próprio despresidente, do que a corja inteira x2!!!
Som de multidão. Amarelo segue correndo no lugar, perdendo o fôlego, mas focado na ação.
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